Gestão na Pecuária

Por Antonio Chaker El-Menari Neto - Instituto Inttegra


Produzir bezerros depende menos do mercado que engordar bois

Embora o mercado sempre influencie nos resultados, não ter dependência da compra da reposição é um ponto positivo para o sono do criador.


Pecuaristas observando por trás o rebanho de bezerros nelore enquanto pastam em um campo extenso e verde.

Quando comparamos aspectos que influenciam no risco e resultados da cria e de outras etapas de produção, o elo onde tudo começa tem uma vantagem indiscutível: não há compra de reposição

Neste artigo analisaremos os componentes de custos tais como as variações das receitas e dos custos de forma a apresentar as vantagens da atividade pecuária quando não há necessidade de aquisição da reposição.

  • Componentes de custo no custo operacional
  • Variações das receitas e custos
  • Considerações finais

 A pecuária de cria não é uma atividade fácil, de forma alguma, há os cuidados com o  bezerro, escolha dos touros, inseminação, diagnósticos de gestação, entre outros; enquanto em um sistema de recria e engorda, em geral, há menos variáveis produtivas e técnicas à mesa.

Apesar de mais pontos de atenção, em um sistema de cria, via de regra, há compra apenas dos reprodutores, que ficam alguns anos no rebanho.

Já em um sistema de recria e engorda, todo o estoque é vendido e precisa ser reposto. E quanto mais eficiente é a engorda, mais rapidamente ocorre a reposição deste gado. Ou seja, há dois grandes preços que influenciam no resultado e que não estão na mão do produtor: preço de compra e de venda.


COMPONENTES DE CUSTO NO CUSTO OPERACIONAL

Segundo o IMEA (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária), as depreciações e a suplementação são os componentes com maior peso no sistema utilizado como referência para a cria. Veja a figura 1.


Figura 1.Participação dos componentes de custo no custo operacional total da cria em Mato Grosso, no segundo trimestre de 2021. 

 Gráfico de pizza relacionando diferentes componentes de custo para operacionalização da cria no Mato Grosso. São elas: Reprodução e Sanidade 4%,Manutenção 3,2%;Financeiras 2,6%, Pastagem 2,2%, Depreciações 22.5%, Pró labore 10,3%; Suplementação 22,1%; Aquisição de animais 10,2%; Mão de obra 10%;impostos e taxas 6,8%, outros 5,9%.

Fonte: IMEA / Elaboração: Scot Consultoria

Reprodução e sanidade aparecem com 4,0% do custo por arroba vendida. Obviamente, essas referências variam de sistema para sistema, mas a sanidade sempre tem um peso muito pequeno sobre os custos dos sistemas produtivos de pecuária de corte.

O impacto pequeno no custo não pode ser confundido com uma menor relevância da sanidade no sistema. É só mais um reforço de que, custando pouco, tem que ser bem-feita.

Vamos a um exemplo: com o preço do bezerro a R$13,50/kg em São Paulo (ago/21), se tivermos um custo anual com sanidade de R$15,00 por cabeça, é preciso um ganho adicional de 1,1kg para que este se pague (em um ano), ou seja, se os produtos gerarem 3g a mais de ganho por cabeça por dia, a sanidade estará paga.

Sob uma outra ótica, temos a segurança advinda da sanidade. Nesta linha, um animal que morre por botulismo ou outra doença que possa ser evitada com vacinação, representa um custo maior que a vacinação de um lote, senão de todo o rebanho. Por exemplo: um bezerro de R$3,05 mil equivale a mais de duas mil doses de uma vacina contra clostridioses, entre outros.

Voltando a um cenário mais amplo, fazendo uso dos custos apresentados para cria e os custos da recria e engorda do IMEA, fica claro o peso da alimentação e reposição no custo total. Enquanto em um sistema de recria e engorda a suplementação e aquisição de animais soma 80,0% do custo operacional total, na cria essas parcelas somam 44,1%.

Percebam que, na recria e engorda, quatro quintos do custo estão relacionados a itens altamente dependentes do mercado, como a suplementação e a compra dos animais de reposição.

Já na cria, como em um rebanho estabilizado, a compra de animais se limita aos reprodutores e o mercado influencia menos os custos. Ou seja, quando o preço de venda sobe, é mais provável que o resultado da cria melhore. Na recria e engorda, como a suplementação tende a ser mais intensiva e há o custo com reposição, a alta dos preços de venda pode não ser sinônimo de melhoria de resultados.


VARIAÇÕES DAS RECEITAS E CUSTOS

A Scot Consultoria calcula mensalmente um Índice de Custo de Produção que contempla as variações dos componentes de custo, como mão de obra, combustíveis, suplementos minerais, itens de sanidade, entre outros; que não inclui os custos com reposição.

A Figura 2 mostra a evolução dos preços do bezerro e boi gordo em São Paulo e do Índice de Custo de Produção, desde o início do plano Real. Percebam como, na maior parte do tempo, os custos trabalharam com variação maior que os preços de venda.

Figura 2. Evolução dos preços do bezerro, boi gordo e índice de custo de produção, ago/1994=base 100. 

 Gráfico de linha representando a  evolução dos preços do bezerro, boi gordo e índice de custo de produção de janeiro de 1995 até 2021. O gráfico apresenta crescimento para as 3 linhas, com uma subida brusca em 2020.

Fonte: Scot Consultoria

Em 2020, os preços do bezerro superaram a variação dos custos, sempre tendo como referência o início do Plano Real. Apesar de também ter se valorizado nos últimos anos, o boi gordo não conseguiu compensar os custos no acumulado do período maior analisado.

Em um sistema de recria e engorda, o bezerro também é um componente de custo, o que demonstra que a conta é mais dependente de mercado, como dito anteriormente. Com isso, para termos um cenário certo de aumento de margem da recria e engorda, o boi gordo tem que subir mais do que o bezerro e os custos.

Analisado os últimos anos, a figura 3 apresenta as variações do boi gordo, bezerro e índice de custo, nos últimos 12, 24 e 36 meses.   

Figura 3. Variações dos preços do bezerro, boi gordo e índice de custo de produção, nos últimos 12, 24 e 36 meses.

Gráfico de barras comparando as variações dos preços do bezerro, boi gordo e índice de custo de produção, nos últimos 12, 24 e 36 meses. Nos 12 meses o boi gordo teve a maior variação; nos 24 e 36  meses foi o bezerro, com um custo bastante abaixo.


Fonte: Scot Consultoria

O preço do bezerro subiu mais que o custo em 24 e 36 meses. Com isso, podemos afirmar que a margem da cria melhorou, com algum recuo no último ano (12 meses), quando o bezerro subiu 26,6% e o índice de custo teve alta de 30,1%. 

Mesmo subindo mais que os custos em 24 e 36 meses, o boi gordo perdeu para o bezerro nesses intervalos. E em um sistema que compra animais, estes são os principais ítens de custo. Com isso, alta para o boi gordo não é sinônimo de melhoria de resultado, que também depende da troca com a reposição. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Qualquer atividade pecuária está sujeita às variações de mercado, mas quando não há necessidade de aquisição da reposição, como ocorre na cria e ciclo completo, o produtor tem um item a menos de risco. 

Com isso, a parte zootécnica, que é importante em qualquer sistema, ganha ainda mais peso, pois embora o mercado não possa atrapalhar (o que é bom), também não há possibilidade de ganhos advindos de uma compra muito bem-feita de reposição, por exemplo. 

Na cria, fica a oportunidade de resultados menos dependentes de mercado. 

Ainda há questões climáticas e outros fatores que não podem ser controlados, por isso, a sugestão ao criador e a qualquer pecuarista, é trabalhar a parte que depende dele da melhor maneira, aproveitando oportunidades de mercado, sempre que possível. 

Com isso, nas fases boas, os resultados são ainda maiores e, nas ruins, há mais “gordura para queimar”, com margens maiores.

Hyberville Neto – Médico veterinário, msc. 

Scot Consultoria


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