Mercado

Por Hyberville Neto e Rafael Ribeiro - Scot Consultoria


Ciclo pecuário e as oscilações de oferta de gado 

 Hyberville Neto |  Scot Consultoria 

Quando uma atividade se apresenta lucrativa, é comum que ocorram mais investimentos, com o objetivo de ampliar a produção e gerar mais lucros. 

Esses movimentos de maior ou menor investimentos ocorrem nos mais diversos setores e, na cria, não é diferente, já que tais oscilações de investimentos afetam a oferta e geram o chamado ciclo de preços pecuário, detalhado a seguir. 

 

Rebanho de Gado reunido por pastor e observado por veterinária

O que é o ciclo pecuário? 

O ciclo pecuário é caracterizado pelas variações de preços do boi gordo e reposição, resultantes de momentos de maior ou menor oferta das diversas categorias. 

Como citado anteriormente, em momentos de preços em alta, o retorno financeiro da atividade aumenta, o que gera ânimo nos produtores, que investem nas diversas fases, incluindo na produção de bezerros.  

Como não possuem reposição e o uso de insumos na nutrição (milho, farelo) é relativamente pequeno, a relação entre preços de venda em alta e melhoria de resultados é maior, por exemplo, que na engorda, que depende também dos custos com reposição.  

Investir na produção de bezerros, entre outras coisas, é manter mais fêmeas no rebanho, ou seja, abater menos vacas e novilhas. Como o mercado já estava interessante devido aos preços das diversas categorias em alta, a diminuição da oferta de vacas e novilhas retroalimenta o momento positivo de preços, intensificando o cenário de alta.  

Em alguns anos, no entanto, o investimento na cria trará uma oferta maior de bezerros, o que tende a tirar a firmeza do mercado.  

Quando uma indústria diminui sua capacidade, as máquinas, que são os meios de produção, simplesmente param, mas não afetam a oferta do produto. Na pecuária, o desinvestimento passa pela venda das “fábricas de bezerros”, vacas e novilhas e a oferta de carne tem um reforço, o que intensifica a pressão de baixa sobre o mercado.  

Em alguns anos, a oferta encurta e, a fase de alta, volta. 

 

Onde estamos? 

Um dos parâmetros que nos ajudam a definir a fase do ciclo pecuário, além dos preços, é a participação de fêmeas nos abates.  

Nos períodos de investimentos na atividade, a participação de vacas e novilhas nos abates diminui. Veja na figura 1 a participação de fêmeas nos abates e os preços do boi gordo, em valores reais, deflacionados pelo IGP-DI (Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna, da Fundação Getúlio Vargas). 

Figura 1. 

Preços reais do boi gordo (eixo da esquerda) e participação de fêmeas nos abates (eixo da direita). 

Gráfico de preços reais do boi gordo

 Fonte: IBGE / Scot Consultoria 

Utilizamos os preços do boi gordo, mas o movimento para bezerros e bois magros é semelhante. Obviamente, existem momentos em que um ou outro tem uma maior oscilação e é daí que ocorrem as variações da relação de troca. De toda forma, os movimentos de longo prazo são muito próximos, tanto é que as correlações dos preços deflacionados do boi gordo são de 0,97 com o boi magro e de 0,96, com o bezerro de ano (para as médias anuais). 

Voltando à figura 1, observamos que entre 2016 e 2018, com os preços em queda, houve um momento de aumento da participação de fêmeas nos abates, o que afetou a oferta nos anos seguintes. Entre 2016 e 2018, a participação de fêmeas nos abates passou de 38,6% para 41,6%. 

Com isso, a produção de bezerros diminuiu e, desde 2019, temos observado valorizações e quedas dos abates de fêmeas, pela retenção e investimento na atividade.    

Entre 2018 e 2019, a cotação média do boi gordo subiu 5,4% e, de 2019 para 2020, a alta foi de 20,2%, em valores reais. Aqui podemos destacar que, em 2019, as cotações subiram fortemente na reta final do ano, mas como a alta foi súbita, concentrada em alguns meses, a média anual não mudou tanto. 

Já a participação de fêmeas nos abates essa passou de 41,6% em 2018 para 40,8% em 2019 e, 36,5% em 2020.  

Para 2021, ainda temos apenas os dados oficiais do primeiro trimestre, mas que já indicam a continuidade do movimento de retenção, como mostra a figura 2.  

 Figura 2. 

Participações de fêmeas nos abates de bovinos, nos primeiros trimestres dos respectivos anos: 

Participação da Fêmea no abate de bovinos

 Fonte: IBGE / Scot Consultoria 

participação de vacas e novilhas nos abates no primeiro trimestre de 2021 foi de 36,8%, a menor desde 2003, quando compuseram 36,3% dos abates. Podemos observar, na figura 2, que a participação no primeiro trimestre é normalmente maior e essa mesma tendência é observada no fechamento do ano.  

No primeiro semestre, mais fêmeas vão para o gancho devido à sazonalidade reprodutiva, com a estação de monta ocorrendo entre o final e o começo do ano, na maior parte das regiões pecuárias. Com isso, após o término da estação e diagnóstico de gestação, ocorre o descarte de parte das fêmeas. 

A queda importante no primeiro trimestre leva à expectativa de que, em 2021, tenhamos mais um ano de retenção.   

 

Nem só de oferta vive o mercado 

Aqui temos um comentário importante. Nesta análise, focamos nas variações de oferta, que são a base do ciclo pecuário, mas obviamente a demanda é outro pilar da precificação do boi gordo.  

Paralelamente ao momento de oferta curta, temos os últimos anos foram de forte demanda chinesa para exportação, o que ajudou nas valorizações. Já no mercado doméstico, já tivemos os efeitos econômicos relacionados à pandemia, que afetaram negativamente o consumo. 

Ou seja, A oferta menor de bovinos para abate aliada às exportações segurou as pontas de um mercado doméstico mais fraco.  

 

Expectativas  

Após alguns anos de retenção, devemos observar aumento da oferta de gado, primeiramente de categorias jovens, para o próximo ano. 

Esse cenário pode aumentar a oferta de fêmeas e diminuir a força do mercado, mas, o ponto positivo é que, paralelamente, o consumo doméstico deve estar em processo de recuperação, o que pode trazer o equilíbrio entre oferta e demanda.  


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