Bem-Estar na Pecuária

Por Adriano Gomes Pascoa - BEA Consultoria e Treinamento


Dialética do bem-estar ou o bem-estar e seus extremos 

Gosto de pensar que a busca pelo bem-estar é sempre válida, independente da motivação que a precede. Há quem esteja genuinamente preocupado com o sofrimento dos animais. Na produção animal da era moderna, com as informações sendo repassadas em tempo real pelas redes sociais, estão cada dia mais presentes e sendo pressionados a estar, mesmo que inicialmente por “extremos”, os métodos, estruturas e equipamentos para um manejo mais racional, além da preocupação com o bem-estar dos animais. 

Bezerro e vaca no pasto ao lado de uma cerca de madeira, com pasto extenso e verde ao fundo.

Lutar contra o consumo de qualquer produto de origem animal que seja utilizado, mesmo que para fins de saúde coletiva, ou não ter qualquer empatia com os animais, mas entender que o bem-estar é uma preocupação crescente entre os consumidores e que se pode tirar proveito de sua aplicação são exemplos desses “extremos”. Entre esses dois existem uma infinidade de “personas”: pecuaristas, unidades frigoríficas, laboratórios de medicamentos e técnicos que sabem que o fornecimento de melhores condições aos animais se traduz em melhores índices produtivos, melhor qualidade, melhor aproveitamento do medicamento ao mesmo tempo que melhoram a vida dos animais. Quem ganha com essa discussão? Todo mundo! É o que temos chamado de bem-estar único ou “Um bem-estar”. 

Mas nem sempre foi assim... Para que vocês tenham uma ideia, quando professores, pesquisadores e outros profissionais iniciaram seus estudos e trabalhos com os animais de produção, na década de 90 – e eu participei desse momento – era muito complicado entrar em uma propriedade para fazer as avaliações relacionadas ao bem-estar. Muitos fazendeiros, técnicos e gerentes tinham a percepção que essa preocupação era irrelevante à produção, ou ainda suspeitavam que queríamos entrar na propriedade para fazer alguma denúncia posterior. 

Só um aparte. Vejam que eu não coloquei nesse texto, as pessoas que maltratam os animais ou que durante o manejo com eles, realizam atos de abusos. Essa discussão já foi ultrapassada. No Brasil, atos de abuso e maus-tratos são considerados crimes (legitimados pelos Art. 32, da Lei Federal nº. 9.605, de 12.02.1998 - Lei de Crimes Ambientais - e pela Constituição Federal Brasileira, de 05 de outubro de 1988). 

Voltemos ao nosso caminho. Mesmo que discordando de qual trilha seguir, o destino é o mesmo, os resultados são muito parecidos. Então vamos refletir um pouco sobre o mundo em que vivemos! O sofrimento faz parte da vida dos animais, assim como da nossa própria, e ele se inicia ao nascimento. Vamos pegar o exemplo em bovinos: ao nascer, um bezerro sai do conforto do útero da vaca e pode dar o azar de ser parido em um dia frio e chuvoso. Os dias secos e ensolarados são igualmente ruins para ele, afinal o sol quente em um animal que estava acostumado com a escuridão e umidade do útero o deixa mole e confuso. Pois bem, nesse início de vida, em pouco tempo, ele tem que aprender a ficar em pé e encontrar um alimento que o dê uma injeção de energia, na verdade está mais para ingestão: o colostro. 

Uso muito esse exemplo para explicar a importância da outra ponta: o abate. Muitos justificam a sua falta de preocupação com os animais com a seguinte frase: “porque nos preocuparmos com o bem-estar de um animal que vai morrer?”. E eu usualmente retorno com duas perguntas: 

  1. Se sofremos ao nascimento, porque nascer (ou fazer nascer)? 
  2. Preferimos morrer com sofrimento ou sem? Quando forçados a pensar sobre o fim da vida, apesar de que todos queremos ser eternos, iremos responder com quase certeza desejar morrer dormindo, ou seja, sem sofrimento! 

Mas então se sabemos da importância do oferecimento de condições melhores aos animais, seja por melhor manejo, instalação ou ambiente, por que ainda encontramos resistências ou simplesmente esse conhecimento não é aplicado? 

Na minha opinião, são 4 os motivos principais (os quatro “i”s): 

  • Ignorância, no sentido de desconhecimento mesmo (muitas pessoas ainda desconhecem os conceitos e técnicas para se obter uma melhor condição de bem-estar);
  • Inexperiência, e aqui talvez se encontre a maioria das propriedades, com a famosa frase de “eu sei que está errado, mas não faço ideia de como fazer corretamente”;
  • Incompetência, que podemos definir como pessoas ou técnicos que apesar de terem o conhecimento, tiveram alguma limitação no uso dessa informação, seja pela falta de colaboradores qualificados ou escassez de recursos e por último, o pior dos motivos;
  • Indiferença, simplesmente a pessoa não está nem aí para o sofrimento dos animais e não se preocupa em melhorar as suas condições de trabalho. 

O nosso papel é, portanto, o de espalhar o bom conhecimento de forma mais democrática possível, a todos, do mais simples vaqueiro ao técnico conceituado e tomador das decisões. Sejamos nós agentes da mudança, buscando o caminho de forma serena entre as diversas ideias. Usando dos argumentos financeiros, que são muitos, mas sem perder os animais de vista e que, como nós, são seres sencientes (que sentem) permitindo-os que vivam uma vida que vale a pena ser vivida.  

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