Bem-Estar na Pecuária

Por Adriano Gomes Pascoa - BEA Consultoria e Treinamento


O manejo racional e o bem-estar animal no pré-parto 

Para muitos pecuaristas, o que importa é o dinheiro na conta. Mas, em muitos momentos, o que nos falta é justamente fazer as contas! Eu digo isso a vocês com muita naturalidade, pois isso é muito perceptível em diversas realidades que encontramos Brasil afora.

Pecuarista em pé, de chapéu, estendendo o braço para acariciar a vaca nelore em sua frente.

É muito comum ouvir os produtores dizerem “esse pasto é bom para engordar boi” ou “essa área não serve para os bois, então vamos colocar as vacas”, como se esses animais fossem uma “subcategoria”, inferior aos animais de engorda e que, por conta disso, pudessem ser manejadas de uma forma mais “largada”, como dizem os matutos. 

O engano está aí! O investimento (e aqui me refiro ao investimento adequado e necessário) realizado nessa fase inicial da produção, afeta muitos dos índices zootécnicos que se transformarão em rendimentos financeiros à propriedade. Vejamos!

Muitas podem ser as estratégias a serem relacionadas ao correto manejo dos animais, no sentido de melhorar o seu nível de bem-estar e, ao mesmo tempo, aumentar a produtividade deles. Um dos grandes desafios é conseguir descrever essa relação de causa e efeito, uma vez que muitas dessas ações se combinam e produzem efeitos igualmente entrelaçados (genética, nutrição, instalações adequadas e, um dos mais importantes, o manejo). 

Nesse programa de Manejo Racional e Bem-estar Animal (MR.BEA), podemos pontuar a importância de ações melhoradoras em cada processo e o seu respectivo resultado, mas o conjunto das ações, normalmente, tem um efeito combinado maior e, muitos desses ganhos (ou diminuição de perdas), são difíceis de se mensurar. Além disso, temos os efeitos de longo prazo, que irão se expressar anos após uma determinada melhoria no manejo.

Devemos lembrar que os investimentos necessários devem ser realizados em todas as áreas importantes ao manejo racional (e bem-estar animal): correta nutrição, alojamento, sanidade e manejos com os animais, sempre levando-se em conta o comportamento, as diferenças entre cada animal e as limitações das propriedades onde eles estão alojados.

Segundo dados da CNA (2018), a produção brasileira de bezerros é de 0,25 animais por hectare (ha), ou seja, são necessários 4 ha para se comercializar um bezerro. Esse baixo índice de produção é resultado do formato de expansão territorial e consequente menor tecnificação da cria, informação corroborada pelos índices zootécnicos da atividade, como, por exemplo, alto intervalo médio entre partos (18 meses), alta idade para a primeira cria (36 meses) e baixa idade para o descarte (6,5 anos). 

Na média brasileira, esses números correspondem a uma matriz concebendo menos de seis bezerros durante sua vida útil. Como fatores principais à essa baixa produtividade podemos citar: a falta de cuidado com as fêmeas desde o momento em que nascem, o pouco controle zootécnico e a falta de cuidados com a alimentação das matrizes.

Essa cultura que falamos há pouco, de deixar bons pastos para a recria e engorda, enquanto as fêmeas são criadas nas áreas de menor produtividade, é uma percepção equivocada que gera bezerros fracos ao nascimento e vacas que acabam não se recuperando totalmente após o parto. 

E quem diria que esse melhor período para o nascimento dos bezerros, com menor ocorrência natural de parasitos e baixa incidência de pneumonia, a “seca”, seria tão dura com a nutrição das vacas, não é mesmo?

Como fazemos, então, para mitigar esses desafios? A estratégia mais importante nesses momentos que precedem o parto (de 30 a 60 dias antes) é a avaliação do escore corporal e a tomada de decisão em função do resultado. Lembrando que, bem antes que isso, e vamos retratar essa situação em um artigo posterior, essas matrizes devem ser corretamente vacinadas com as chamadas vacinas reprodutivas (IBR, BVD, Lepto, Campilobacteriose) e, em algumas regiões, com as respiratórias.

Mas, voltemos à avaliação de escore corporal! Essa avaliação reflete um estado do rebanho num dado momento. O uso dessa técnica permite que correções no manejo nutricional possam ser efetuadas a tempo, de modo que os animais apresentem as condições mínimas no momento desejado e, nesse caso, o parto. Existe uma alta correlação entre a condição corporal ao parto e o desempenho reprodutivo no pós-parto. Vacas com boas condições corporais ao parto retornam ao cio mais cedo e apresentam maiores índices de concepção. Temos, então, que suprir as deficiências das pastagens de modo a manter as vacas em escores moderados a bons, fugindo completamente dos escores muito magros e magros e, tampouco, elevá-los aos escores gordo ou muito gordo. Vacas com escores baixos geram bezerros fracos e um alto índice de mortalidade, mas animais com escores muito altos têm dificuldade ao parto com alto risco de problemas e, muitas vezes, dificuldade em retornar ao cio.

A melhoria no sistema de manejo, bem como a avaliação de reatividade dessas fêmeas (que pode ser realizada antes mesmo da estação de monta), são ferramentas à disposição de um bom gerenciamento da propriedade. À medida que esses animais são avaliados, segundo um escore de reatividade e após essa classificação, aqueles muito reativos são descartados e a taxa de prenhez dessas fêmeas tende a aumentar (em alguns estudos, esse resultado foi de 13%). Ou seja, além da economia em protocolos reprodutivos (se for utilizada a inseminação artificial) poderemos ter o nascimento de 13% mais bezerros. Esse aumento na produção de bezerros torna irrelevante a maior taxa de descarte das fêmeas reativas (que também se torna uma fonte de recursos para a propriedade). Essa alteração no perfil dos animais, com a melhoria do manejo, diminui as perdas embrionárias e promove um aumento da taxa de natalidade.

Resumindo, a produtividade do sistema de cria depende do conhecimento mínimo dos fatores envolvidos no processo produtivo, do nível de gerenciamento e planejamento das atividades, das técnicas de manejo empregadas e da disponibilidade de recursos financeiros. E, nos dias de hoje, fica cada vez mais difícil separar bem-estar e manejo racional. Os dois são bons... e dão lucro!

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